Olinda, 10 de junho de 2008


Excelentíssima Prefeita,

Nós, do movimentos de mulheres e feminista e movimento LGBT de Pernambuco, vimos através desta dar conhecimento a V. Exma., manifestar nossa indignação e exigir medidas ao poder municipal de Olinda contra ato de discriminação lesbofóbica ocorrido neste município, em estabelecimento público, o Bar Marola, no dia 24 de maio deste ano. Neste dia, quando exerciam o direito de manifestar afeto e carinho, duas lésbicas foram tolhidas no seu direito à liberdade de expressão afetiva conforme garante o artigo 5º da constituição federal e a Lei municipal nº 5168 de 22 de abril de 1999 de autoria do vereador Marcelo Santa Cruz, promulgada pela camara municipal de Olinda e regulamentada pelo decreto 196 de 2005 por vossa excelência. As mulheres foram constrangidas a retirarem-se do bar, por sua gerência, sob a alegação de que tais "comportamentos não eram aceitáveis" no estabelecimento, numa clara manifestação de discriminação lesbofóbica do referido estabelecimento.


Este não é o primeiro ato de discriminação lesbofóbica acontecido em Olinda e que tornou-se público em função da denúncia e da manifestação das vítimas, apoiada pelos movimentos que defendem a liberdade de expressão afetivo-sexual, a autonomia e a democracia no Estado de Pernambuco. Estas denúncias já resultaram na conquista de Lei Municipal voltada para prevenir e coibir a homofobia/lesbofobia no município. Esta legislação, no entanto, não está sendo efetivada, como revelam fatos como este, que ora denunciamos.

O Brasil acaba de realizar o primeiro processo de conferências públicas voltados para garantir os direitos da população LGBT, o que torna atos como este, e a ausência de medidas e políticas voltadas para o enfrentamento da lesbofobia e da cultura patriarcal que a reproduz, inaceitáveis.

Assim, consideramos que é urgente a tomada de iniciativas do poder municipal que garantam a efetiva implementação desta Lei e a garantia da liberdade de expressão afetivo-sexual à todas pessoas que moram, vivem e circulam por Olinda.

Por esta razão, os movimentos que assinam esta Carta solicitam audiência pública com a V. Exma. e com a Coordenadoria da Mulher de Olinda, com vistas a apresentar suas questões e proposições para a efetivação dos direitos das lésbicas e da população LGBT e a plena garantia e vivência dos direitos sexuais e da liberdade afetivo-sexual na cidade de Olinda que sempre representou, para o estado de Pernambuco, um patrimônio libertário. Como também a participação de representantes dessas instâncias governamentais para participar do ato público bar marola, no dia 13 do corrente às 17h.

Sem mais para o momento, colamo-nos à disposição para dialogarmos e construirmos uma sociedade onde as pessoas tenham os mesmos direitos, independe da orientação sexual.

Assinam:
Fórum LGBT de Pernambuco
Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB
Fórum de Mulheres de Pernambuco – FMPE e organizações que o compõe:

Associação de Mulheres Nova Esperança
Associação de Moradores do Parque Residencial Vila dos Milagres
Associação de Mulheres Batalhadoras Jardim Paulista
AME-PE Associação de Mulheres Entendidas de Pernambuco Camaragibe/Pe
Grupo de Mulheres do Cordeiro
Conselho de Moradores da Vila 27 de
Grupo de Mulheres do Conselho de Moradores do Morro da Conceição
União de Mulheres de Maranguape II (Unidamas)
Coletivo de Mulheres de Jaboatão
Centro Social das Mulheres de Arthur Lundgren II
Grupo Mulher Tabajara
Grupo Espaço Mulher de Passarinho
SOS Corpo - Instituto Feminista para a Democracia
Grupo de Mulheres Cidadania Feminina
Grupo Curumim
Centro Mulheres do Cabo
Grupo Mulher Maravilha
Casa da Mulher do Nordeste
Casa de Passagem
Grupo de Teatro Loucas de Pedra Lilás
Centro de Cultura Luiz Freire
Centro Nordestino de Medicina Popular
Cidadã Posithiva
Coletivo Mulher Vida
Divas
Flor de Mandacaru
Gestos-Soropositividade, Comunicação e Gênero
Graúna-Juventude, Arte, Gênero e Cidadania
Instituto Papai
Uiala Mukaji - Sociedade de Mulheres Negras de Pernambuco
APPS - Associação Pernambucana das Profissionais do Sexo
Grupo Cactos
Grupo de Trabalho em Prevenção Posithivo (GTP+)
Observatório Negro
Secretaria de Mulheres Trabalhadoras da Central Única doa Trabalhadores (CUT/PE)
Sindicato de Trabalhadores Domésticas
SINTEPE
Comissão de Mulheres do PT
Secretaria de Mulheres do PSB
Coletivo de Jovens Feministas
Centro das Mulheres de Joaquim Nabuco
Centro das Mulheres de Pombos

Grupo Luas
Associação Lésbica Feminista de Brasília – Coturno de Vênus
União Brasileira de Mulheres - UBM
Grupo Satyricon
Grupo Gaymado
Grupo Gay de Pernambuco – GGP
Grupo Homossexual do Cabo – GHC
Liga Brasileira de Lésbicas - LBL
Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania Homossexual – NUCH/UFPE
Movimento Gay Leões do Norte
Betania Serrano, Feminista, FMPE
Márcia Cruz, Feminista.
Suely Oliveira, Feminista/Partido dos Trabalhadores-PT

 

Fala pública: Verônica Ferreira, Lésbica, Feminista

Olinda, 13 de Junho – Pela liberdade!

Beijar é um ato de afeto. Amar é direito de todas as pessoas. Mas, na sociedade machista, patriarcal, conservadora e intolerante, nem todo mundo pode demonstrar o seu afeto. Gays e lésbicas são impedidos de viver esse direito.

No Marola, parece que o que vale não é lei. Pela lei, pela constituição, ninguém pode ser discriminada por sua orientação afetivo-sexual. No Marola, vale o quê? Vale o conservadorismo? Vale quem consome mais? Parece que o Marola virou Carola!

Atos como este denunciam a lesbofobia, a aversão às lésbicas, à aversão e a tentativa de controle e opressão sobre as formas mais livres de amar.  Mostra, com já disse uma grande lésbica feminista, o quanto são temíveis as formas de ligação e liberdade entre mulheres para a sociedade conservadora e fundamentalista.

Para nós, mostra o quanto o amor entre mulheres é transformador. Mostra o quanto é importante nos revelarmos, porque assim, nós fazemos uma revolução cotidiana, em qualquer espaço e em todo lugar!

O que a administração deste bar não sabia, ao nos expulsar no dia 24 de maio, mas agora sabe, é algo muito importante: uma mulher lésbica oprimida, não está sozinha. Duas mulheres lésbicas oprimidas não estão sozinhas. Pois existe, em Pernambuco, o movimento de mulheres, o movimento feminista, o movimento LGBT, movimentos que defendem a liberdade, radicalmente, e que não se calam diante das injustiças, não se calam diante da arbitrariedade, não se calam diante da discriminação, não se calam diante da lesbofobia e da homofobia. Estes movimentos estão aqui, hoje, mostrando isso.

A nós, o feminismo ensinou que não nos interessa uma liberdade escondida, liberdade comportada, liberdade de faixada, liberdade de mercado. Essa liberdade não existe. É uma farsa.  O feminismo  e a luta das lésbicas e gays nos ensinou que liberdade pra viver e amar é algo inegociável, é ar que se respira.

E essa liberdade conquistada ninguém expulsa mais de mim, ninguém expulsa mais de nós, ninguém expulsa mais do mundo.

Beijei, beijamos e beijaremos como ato de amor e como ato de liberdade! E como uma forma subversiva - e deliciosa - de transformar o mundo!.