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Diversidade Sexual - Uma breve introdução
Kelly Kotlinski
Neste artigo, abordaremos o tema diversidade sexual,
traremos alguns entendimentos possíveis sobre essa questão
que é cercada pelo estigma e pela desinformação.
Em seguida incluímos o que entendemos por alguns conceitos
utilizados nesta obra.
É impossível falar de diversidade sexual sem enfrentar
o debate sobre relações de gênero, conceito
este que nos pré-requisita o entendimento de outros dois:
sexo e gênero.
Sexo refere-se às características
específicas e biológicas dos aparelhos reprodutores
feminino e masculino, ao seu funcionamento e aos caracteres sexuais
secundários decorrentes dos hormônios. O sexo determina
que as fêmeas têm vagina/vulva e os machos têm
pênis; apenas isso. O sexo não determina por si só,
a identidade de gênero, e muito menos, a orientação
sexual de uma pessoa.
Gênero não é um conceito biológico,
é um conceito mais subjetivo, podemos dizer que é
uma questão cultural, social. Gênero é um empreendimento
realizado pela sociedade para transformar o ser nascido com vagina
ou pênis em mulher ou homem. Nesse sentido, gênero é
uma construção social, é preciso um investimento,
a influência direta da família e da sociedade para
transformar um bebê em 'mulher' ou 'homem'. Essa construção
é realizada, reforçada, e também fiscalizada
ao longo do tempo, principalmente, pelas instituições
sociais, são elas: a igreja, a família e a escola.
Os valores sociais, morais, as regras de uma sociedade variam de
acordo com o tempo, o espaço, os interesses, o nível
de conhecimento e a liberdade de questionamento dessa sociedade.
Nesta sociedade, gênero refere-se aos papéis sociais
diferenciados para mulheres e homens.
Assim podemos entender que a heterossexualidade enquanto uma regra
social também é produto de um processo pedagógico
que se inicia no nascimento e continua ao longo de toda a vida.
Ou seja, nesta sociedade, se nascer fêmea, será ensinada
a cumprir o papel de gênero "mulher", e a ter uma
orientação sexual "heterossexual".
Neste sentido, sexo, identidade de gênero e orientação
sexual são valores ou conceitos fechados, pré-construídos
e compartilhados pelas instituições sociais. De tal
forma que, se uma pessoa ousar questionar seu próprio sexo,
ou tiver outra identidade de gênero além daquela pré-estabelecida,
ou ainda que se expresse sexualmente fora do padrão heterossexual,
esta pessoa estará, no mínimo, convidando a sociedade
a uma "revolução de valores". Pode-se dizer
que esta pessoa está pondo em questão, ou problematizando
o sistema dominante.
Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros
rompem com o sistema dominante, estão além das barreiras
conceituais do que é sexo, identidade de gênero e orientação
sexual, convidam a sociedade a uma visão mais ampla e diversa.
Mas, em muitos casos, a comunidade LGBTTT é alvo de intolerância,
discriminação, preconceitos e violências de
autoria de uma parte da sociedade que tem imensas dificuldades em
lidar com a diversidade e que é violenta.
Sexo, identidade de gênero e orientação sexual
são três âmbitos distintos de expressão
ou vivência social de uma pessoa. E são várias
as possibilidades de entendimento e expressão dentro de cada
âmbito. Assim como o sexo não define necessariamente
a identidade de gênero, a identidade de gênero não
define a orientação sexual de uma pessoa.
Reconhecer todas essas possibilidades e ainda outras que podem
surgir, é perceber a diversidade sexual,
é respeitar a diversidade humana, contribuindo assim com
uma sociedade justa, diversa, igualitária e livre.
Quanto à homossexualidade..
Não é contra a natureza - Em 1979,
uma pesquisa sobre o comportamento das baleias orcas, observou pela
primeira vez, a homossexualidade entre os machos da espécie.
Já em 1999, foi lançada uma pesquisa bastante completa
e abrangente sobre a homossexualidade na natureza. Em seu livro
Biological Exuberance - Animal Homosexuality and Natural Diversity(1),
o pesquisador Bruce Bagemihl analisou mais de 400 espécies,
na maioria mamíferos e aves, todas praticantes, em maior
ou menor grau, de hábitos homossexuais. A pesquisa mostra,
inclusive, que as relações homossexuais na natureza
não são fruto de "confusão" do instinto,
aberração ou falta de fêmeas. Pode-se dizer
que, a maioria dos animais homossexuais é assim porque é.
O autor indica que a homossexualidade animal é muito comum
em quase todas as espécies de mamíferos. Se por um
lado se estima que cerca de 10% dos seres humanos são homossexuais(2),
no reino animal, essa parcela pode chegar a 27% dos indivíduos
de uma mesma espécie.
Mais recentemente, Joan Roughgarden, bióloga inglesa amplamente
reconhecida por seus estudos em teoria evolucionista, gênero
e sexualidade, lançou livro(3) sobre o mesmo tema.
Não é ilegal - Não há
proibição, condenação ou leis anti-homossexuais
no Brasil, ao contrário, ilegal é a discriminação
de pessoas em virtude de sua homossexualidade.
Não é uma opção -
Ser homossexual não é uma questão de escolha,
e sim, uma condição da pessoa. Podemos dizer que ninguém
escolhe ser homossexual, ninguém vira homossexual, a pessoa
é homossexual. Sendo eu uma mulher, eu posso optar por fazer
sexo com homens e até com mulheres, mas será que eu
posso escolher gostar de fazer sexo com homens ou gostar de fazer
sexo com mulheres? Será que eu posso escolher me apaixonar
por um homem ou me apaixonar por uma mulher?
Não é doença - Tanto a Organização
Mundial de Saúde, quanto o Conselho Federal de Medicina do
Brasil, e até o Conselho Federal de Psicologia já
retiraram, há décadas, a homossexualidade da lista
de doenças ou desvios sexuais. No Brasil nenhuma pessoa pode
ser submetida a tratamento para se "curar" de homossexualidade.
Na palavra "homossexualismo" entendemos que o sufixo "ismo"
significa doença, sendo substituído pelo sufixo "dade",
que significa modo de ser. Por isso que hoje se diz homossexualidade.
O que entendemos por...
Homossexual - Palavra usada para designar uma
das formas de orientação sexual possível, neste
caso, é a relação afetiva e sexual entre pessoas
do mesmo sexo. No sentido literal, a palavra tem origem grega, sendo
homo, que exprime a idéia de semelhança, ou igual.
Importante ressaltar que a orientação sexual não
é definida necessariamente pelo sexo ou pela identidade de
gênero de uma pessoa.
Homoafetividade - O preconceito em torno à
homossexualidade espalha uma idéia de que homossexuais se
relacionam com o objetivo exclusivo de fazer sexo. Se, na sociedade,
o sexo é visto como pecado, sujeira etc, e se não
é reconhecido o amor, a afetividade entre pessoas do mesmo
sexo, as relações homossexuais são vistas equivocadamente
como relações de promiscuidade e perversão.
O termo "homoafetividade" é utilizado para visibilizar
e romper com o paradigma de que a homossexualidade está necessariamente
restrita ao ato sexual. Que sim, a homossexualidade envolve relações
afetivas e/ou sexuais entre pessoas do mesmo sexo.
Identidade de gênero - Independente do sexo,
um ser humano pode ter a identidade de gênero de mulher, de
homem ou ainda outras identidades de gênero possíveis,
lembrando que a identidade de gênero é uma construção
social, e não um signo físico ou biológico.
Padrão heteronormativo - É o padrão
social ou sistema social vigente na sociedade brasileira, onde a
heterossexualidade é ensinada, reforçada e exclusivamente
aceita pelas instituições sociais e pela própria
sociedade.
Heterossexismo - Designa um pensamento segundo
o qual todas as pessoas são heterossexuais. Um indivíduo
ou grupo heterossexista não reconhece a possibilidade de
existência legítima da homossexualidade, ou mesmo da
bissexualidade. É a idéia de que a heterossexualidade
é a orientação sexual "normal" e
"natural", que comportamentos "não-heterossexuais"
são um "desvio" da regra social, uma anomalia.
O heterossexismo atribui vantagens à heterossexualidade,
privilegia os direitos de heterossexuais em detrimento dos direitos
de homossexuais. Por vezes sutil, o heterossexismo é a opressão
de "não-heterossexuais" por meio inclusive da negligência,
omissão, supressão e distorção dessas
vivências.
Patriarcado - Sistema de organização
política, econômica, religiosa, social etc, fundada
numa hierarquia na qual a maioria das posições superiores
é ocupada por homens. O patriarcado é também
responsável pela exclusão social das mulheres nas
várias esferas da vida.
Lesbofobia - Entendemos pela fobia que algumas
pessoas e/ou grupos têm em relação às
lésbicas. O termo é usado para descrever uma repulsa
face às relações afetivas e sexuais entre mulheres,
um ódio generalizado às lésbicas e todos os
aspectos do preconceito e discriminação heterossexista.
É apontada como causa da maior parte dos casos de violência
sofridos pelas lésbicas no mundo inteiro.
Homofobia - Tal qual a lesbofobia, é uma
postura de repulsa ainda mais ampliada, ou seja, em relação
às e aos homossexuais, e ainda às e aos travestis,
e às e aos transexuais.
A homofobia se expressa de muitas formas: dificultando a formação
educacional e profissional de homossexuais; motivando demissões
ou mesmo impedindo homossexuais de conseguirem uma vaga no mercado
de trabalho formal; impedindo a expressão da afetividade
de casais em vias públicas etc. Em muitos casos, chega ao
cúmulo da violência física e ao assassinato
de homossexuais, constituindo assim um problema de Estado, pois
abarca a violação dos Direitos Humanos, de todo um
segmento populacional. Portanto, o entendimento da homofobia deve
ir para além de uma questão pessoal daquele que é
homofóbico e ser assumido pelo Estado como um problema social
a ser solucionado.
Igualdade - É um valor da democracia, que
descreve o equilíbrio e igualdade de direitos e responsabilidades
entre os membros da sociedade, independente de orientação
sexual, gênero, faixa etária, classe, raça etc.
Os direitos de uma cidadã heterossexual não podem
ser diferentes dos direitos de uma cidadã homossexual, ou
então o Estado está sendo desigual.
Diversidade - São as distintas possibilidades
de expressão e vivência social das pessoas, dadas por
aspectos de orientação sexual, gênero, sexo,
faixa etária, raça/cor, etnia, pessoa com deficiência,
entre outros.
Justiça - É o princípio básico
de um "acordo" entre Estado e sociedade, que, para garantir
a ordem social, defende os Direitos Humanos, Econômicos, Sociais,
Culturais e Ambientais (DHESCAs). Deve restaurar os direitos ameaçados
e garantir a implementação dos direitos não
reconhecidos ou a criação de novos direitos. Baseia-se
no sistema democrático, no Estado de Direito, na laicidade
do Estado, combatendo todas as formas de desigualdades e injustiças.
Liberdade - Qualifica a independência do
ser humano. Designa o direito à autonomia e à espontaneidade
de expressão de uma pessoa. Prevê a livre expressão,
movimentação, atividade política e de organização
das e dos cidadãos. Orienta a ou o cidadão a se expressar
e a atuar politicamente em defesa de valores democráticos,
como a igualdade e os Direitos Humanos, a contestar e atuar politicamente
contra situações de desigualdades sociais, políticas,
jurídicas e econômicas.
Considerações finais
Desde 1997 o Brasil é citado em documentos internacionais(4)
como um dos países que mais comete violência contra
homossexuais.
Não há justificativas para o Estado ser omisso diante
da homofobia. Uma sociedade que não garante os Direitos Fundamentais
de todas as pessoas não é uma sociedade igualitária,
livre, democrática e justa. Portanto, é dever do Estado
brasileiro garantir os Direitos Fundamentais de lésbicas,
gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros.
Esperamos com este artigo ter contribuído para um maior
entendimento sobre a diversidade sexual.
Indicamos para aquelas e aqueles que buscam mais informações,
a parte final do livro, onde consta uma lista de referências
bibliográficas e páginas eletrônicas utilizadas
nesta obra.
(1). Fonte: Bruce Bagemihl, bibliografia na pág. 307 do
livro
(2). Fonte: Relatório Kinsey, bibliografia na pág.
308 do livro
(3). Fonte: Joan Roughgarden, bibliografia na pág. 309 do
livro
(4).Fonte: Anistia Internacional. Página eletrônica
http://www.br.amnisty.org
Fevereiro, 2007
Leia também: (Nota
Explicativa)
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Kelly Kotlinski
Diretora executiva e Assessora em Gênero e
Direitos Humanos - Coturno de Vênus. Ativista lésbica-feminista,
Graduanda do curso de Gestão em Políticas Públicas
da UNIEURO-Brasília. Co-coordenadora do Fórum de Mulheres
do Distrito Federal, fórum ligado a Articulação
de Mulheres Brasileiras (AMB).
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